I. V. G.
Crime sem castigo é a proposta dos adeptos do “não” à despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, o que quer dizer que as mulheres podem continuar a cometer “crime”, mas que o façam no vão da escada para que não sejam vistas e parecer que não se praticam abortos. Fazem vista grossa para que tudo fique na mesma. Usam argumentos demagógicos, razões inversas da realidade que é antiga, desvairadas alegações, como as que afirmam que o feto, antes das dez semanas, já tem alma, crianças que choram na barriga das mães nas primeiras dez semanas, delírio de quem o afirma.Mas, supondo que assim é? Então, as crianças nascidas aos milhares por este país fora, depois, com um ano, dois, três, quatro e mais, com alimento insuficiente, algumas mesmo passando fome, com doenças de má nutrição e falta de higiene não merecem a abnegada batalha dos que o fazem pelo embrião? Onde estão as damas do não, lutando para que as causas desta calamidade não predominem. Não é a caridade de uma sopa hoje, outra no mês seguinte, que elimina a fome das crianças que passaram o crivo do aborto das mulheres que nada têm para dignificar a vida dos filhos, na atmosfera em que sobrevivem. Imensas crianças vegetam descontentes com a vida que os adultos lhes impõem depois de nascerem.
Os defensores do “não” fazem-no sem darem uma resposta ao problema jurídico que criminaliza a mulher, deixando tudo na mesma, não oferecem solução social e humana para as mães e para os filhos depois de nascidos. Não decidem com frontalidade pelo fim das desigualdades de acesso à saúde que castigam as mulheres dos meios empobrecidos, não se propõem travar o aborto clandestino, negócio que prolifera na sociedade portuguesa há longos anos nos cubículos obscuros de curandeiras, sob a lei proibitiva do aborto. Enfim, não se opõem com uma proposta séria de solução para o problema milenário, o que propõem é a continuidade. Advogam que se mantenha julgar a mulher que aborte uma criminosa, mas, por “compaixão” agora, que não seja criminalizada.
Quando se fala das causas que empurram muitas mulheres para o aborto clandestino como o desemprego que arrasta a insegurança para dentro das famílias empobrecidas, deixando as mulheres num beco sem saída, a mudez impera!
Nas condições políticas, económicas e sociais da actualidade não é dada às mulheres de fracos recursos económicos outra opção. Esta é a realidade que não pode ser escamoteada.
Uma parte dos “nãos” serão sinceros, porque limitados à visão religiosa. Outros porque se pretendem defensores da vida, contudo alguns apoiam acções bélicas de guerras e invasão de países, olvidando que ali se destroçam vidas em plena floração.
Pois eu gosto muito de crianças, e agrada-me muito vê-las bem tratadas, satisfaz-me bastante vê-las correr felizes, e aprecio imenso vê-las a caminho da escola e em grupo saírem das aulas, falando das suas brincadeiras e das coisas que aprenderam. Estas foram desejadas, estão amparadas e são felizes.
Voto pois pelas crianças felizes por isso voto sim à I.V.G.
Carlos Alberto ( Carló)
Pintura: "Aborto" de Paula Rego 1998
Sem comentários:
Enviar um comentário