PELO SIM, PELO NÃO…
Tarde de Junho de 1998, domingo de verão do nosso descontentamento, apesar da mesa de voto número oito registar uma afluência de mais de 60%, bem acima da média nacional. Trata-se de um caso verdadeiramente paradigmático, os seus eleitores são homens e mulheres, operários, trabalhadores, alguns pequenos comerciantes e quadros técnicos, sobretudo gente reformada, que votam esmagadoramente sim no referendo sobre a “Interrupção Voluntária da Gravidez”. Aliás o Barreiro votou maioritariamente sim (cerca de 70% dos votos expressos) numa questão eminentemente cultural que releva da elevada consciência cívica e política dos barreirenses.
Como classifica o filósofo alemão Habernas, existem “dois mundos” na sociedade ocidental moderna: o mundo real, onde subsistem grandes desigualdades económicas e sociais, com muitas famílias sem meios, atingidas pelo desemprego, sem acesso à informação, à fruição cultural, aos recursos informáticos. Particularmente as mulheres são as mais atingidas, com maior índice de desemprego, salários mais baixos, sobrecarga com as tarefas domésticas, violentação sexual. Em Portugal são sobretudo estas as mulheres perseguidas e criminalizadas pela actual “lei do aborto”.
Mas existe “outro mundo”, com recursos, conhecimentos, informação, meios, que permitem resolver sempre todos os problemas, mesmo os mais desconfortáveis. Este “outro mundo”, das duas uma: ou “finge” desconhecer o mundo real, por “distracção”, desprezo ou receio de um dia cair nele; ou reage com cinismo e hipócrita comiseração, chorando lágrimas de crocodilo e fazendo caridadezinha beata. As mulheres deste mundo fazem abortos em secretas clínicas de luxo ou vão ao estrangeiro secretamente, ou seja, é como se para elas a lei não existisse.
Então o que esperam os portugueses para votarem, como já fizeram muitos povos da Europa, a despenalização até às dez semanas, da interrupção voluntária da gravidez, e colocarem todas as mulheres portuguesas em igualdade perante a lei!?...
Permitam-me mais uma reflexão: a igreja patriarcal, que não reconhece o direito das suas mulheres ao sacerdócio, que esconjura todas as formas anticoncepcionais, que está sempre contra o ideário colectivista e abjura o comunismo, fundamentando-se no personalismo cristão, no primado do indivíduo, porque não se coíbe de pressionar o “rebanho”, deixando os portugueses com fé decidirem em liberdade, em consciência, sem constrangimentos de ordem confessional?
No dia 11 de Fevereiro o Barreiro cumprirá o seu desígnio histórico de terra progressista, de grande humanidade, de moderna consciência cívica, de grande sentido de justiça e liberdade.
2 Fevereiro 2007
Armando Teixeira
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
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